Diferenças entre edições de "Uma História do Japão até 1334/Capítulo XX - Após a Invasão Mongol/1. As consequências Econômicas"

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Este desenvolvimento, embora beneficiassem certos clãs samurais cujos feudos estavam convenientemente situados em províncias costeiras, eram desfavoráveis à maioria dos vassalos, que viviam com rendimentos fixos baseados na venda de arroz ou outros produtos agrícolas, de modo que a expansão geral do comércio colocou-os em desvantagem. Como seria de esperar, o nível de preços da maioria das ''commodities'' subiu mais do que o preço dos produtos agrícolas. Alguns samurais encontraram uma maneira de ajustar seu padrão de vida às novas condições, o restante ficou em dívida com a nova classe mercantil, mais comumente com financistas e agiotas que exigiam um alto retorno por seus serviços.
 
A partir dessa época vimos que muitos vassalos se encontravam em crescente dificuldade financeira e não conseguiam encontrar uma saída, a não ser hipotecar suas terras. Era para protegê-los - os ''Samurais'' como uma classe - que o ''Bakufu'', em intervalos freqüentes após 1232, emitissem decretos conhecidos como ''tokusei'' (atos de graça), pelos quais decretavam taxas máximas de juros ou o cancelamento parcial de dívidas. Essas medidas foram comuns durante as três ou quatro décadas que precederam as invasões mongóis, desta forma as dificuldades financeiras dos ''Samurais'' daquela época não podem ser relacionadas exclusivamente às suas contribuições para a defesa.
 
É verdade, no entanto, que a economia sofreu uma retração causada pelo desvio dos esforços militares de defesa por quase duas décadas, a partir de 1274. Nos últimos anos do ''século XIII'', o ''establishment feudal'' ficou ameaçado pelos problemas financeiros que muitos vassalos importantes contraíram. Sua condição é bem ilustrada pelo ''Ato de Graça de 1297'', que foi criado para evitar sua ruína financeira.
 
Suas disposições foram drásticas. Reafirmou e fortaleceu as ordens anteriores que limitavam a transferência de feudos para pessoas fora da jurisdição do ''Bakufu''. Não apenas proibiu as vendas, como ordenou que os feudos que foram vendidos anteriormente fossem devolvidos a seus proprietários originais, a menos que a venda tivesse aprovação oficial. O ''tokusei'' também cancelou todos os empréstimos pessoais, com algumas exceções, em que as garantias foram mantidas pelo credor. Mudanças tão profundas naturalmente causaram alarme entre os financistas e agiotas, levando a uma sucessão de processos e uma multiplicidade de dispositivos para fugir da lei. Não demorou muito para que as novas regras se mostrassem impraticáveis e o governo foi obrigado a reconhecer que os interesses da sociedade feudal deveriam ser atendidos, melhorando ao invés de atacar o sistema de crédito. Essas mudanças foram, feitas menos de um ano após a edição do ''Ato de Graça de 1297'', na esperança de aliviar a situação dos credores. Mas nada disso poderia trazer uma melhoria real na situação dos ''Samurais'', pois suas rendas eram fixas, suas famílias cresciam cada vez mais e seus gastos continuavam a aumentar. De fato, uma condição de endividamento, se não de insolvência, tornou-se endêmica entre os ''Samurais''.
 
Apesar do fracasso dos ''Atos de Graça'' durante o ''século XIII'', foram frequentemente baixados durante o século seguinte, por desespero e não por esperança, e sem sucesso algum. Os emitidos pelos ''Bakufu'' não trouxeram qualquer vantagem para os samurais insolventes em geral, e uma vez que tais medidas favoreciam os devedores contra os credores. Muitos membros da classe guerreira que foram prudentes ou afortunados o suficiente para melhorar suas fortunas e acabaram por emprestar dinheiro para outros samurais ficaram ressentidos com as constantes edições de novos ''tokuseis''. Em suma, os atos de graça foram apenas confissões de seu fracasso por parte do governo ''Kamakura''. Esse fracasso foi o prelúdio da deterioração dos padrões de probidade que distinguiram os grandes regentes e levaram à queda o ''Bakufu'' a sua queda.
 
Embora fosse um erro atribuir o declínio dos ''Regentes Hōjō'' às causas econômicas, o colapso final de seu governo está, de certo modo, ligado à insolvência do governo ''Kamakura''. Seu fracasso não pode ser atribuído à forma como conduziram os problemas da nação, pois os problemas financeiros ja existiam mesmo sob o regime de homens austeros como ''Hōjō Tokiyori'', que era honesto e capaz. Também não se pode dizer que suas políticas foram prejudiciais à economia da nação, uma vez que (como observamos) houve uma expansão acentuada na quantidade total de bens produzidos e commodities comercializadas em todo o país nos últimos dez anos ou mesmo anteriormente, ''século XIII''.
 
A nação em geral, portanto, não tinha motivos para desejar a derrubada do governo ''Kamakura''. Pelo contrário, à medida que a prosperidade aumentava, era desfrutada por uma classe crescente de comerciantes, banqueiros, proprietários de terras que cultivavam suas fazendas com fins lucrativos, comerciantes de varejo e os numerosos funcionários que se empregavam como oficiais de justiça, mordomos, contadores e demais funcionários públicos. Essas pessoas resistiram aos esforços do ''Bakufu'' em proteger os vassalos contra seus credores, mas estas novas camadas não queriam perturbar a ordem estabelecida.
 
A posição do governo ''Kamakura'' no final do ''século XIII'', oferece um exemplo interessante do que parece ser uma regra geral, de que mesmo o governo mais eficiente e confiável está em perigo se se tornar empobrecido. Todo passo corretivo necessário para equilibrar as rendas com as despesas esbarrava cada vez mais nos membros da classe que estava se tornando mais próspera e apontava o caminho para um maior antagonismo, se não para a revolta. Não se pode dizer que o problema financeiro foi a causa da doença que atacou o ''Bakufu'' após a segunda invasão mongol, mas certamente foi um sintoma. Deu aos inimigos e rivais do ''Clã Hōjō'' uma desculpa plausível para encorajar a oposição aos regentes. Aumentar uma queixa é uma maneira fácil de inflamar sentimentos contra um governo no poder.
 
A única medida pela qual o ''Bakufu'' poderia ter recuperado sua autoridade era aumentar a tributação de modo a distribuir igualmente o ônus das despesas de defesa. Mas isso foi algo que os últimos Regentes não tiveram coragem de tentar, mesmo se lhes ocorresse.
 
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