Japão Através da História do Governo Japonês/Relações com a Coréia e a China: diferenças entre revisões

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Quando o ''Imperador Yōmei'' subiu ao trono em 586, sofreu tanto com enfermidades que se sentiu tentado a adorar o Buda. A essa altura, a influência dos budistas havia se tornado tão forte que eles, sob o pretexto de que seus oponentes eram desleais aos desejos do trono, aproveitaram a ocasião para destruir os dois mais poderosos anti-budistas. Então, pela energia combinada do ''Príncipe Shōtoku'' e do ministro-presidente, ''Soga-no-Umako'', a propagação do budismo deu grandes passos, até que a ''Imperatriz Suiko'' encorajou abertamente sua aceitação entre as pessoas de todas as classes. Em 607, foi enviado pela primeira vez na história um enviado imperial diretamente para a ''China'', onde a ''dinastia Sui'' acabara de unificar o grande império, com o objetivo de obter cópias dos Sutras. Este foi o início das relações com a ''China''. O preâmbulo do despacho enviado naquela ocasião pela Imperatriz do Japão para o soberano da China foi redigido nas seguintes palavras: "O Soberano do Império do Sol Nascente envia saudações ao Soberano do Império do Sol Poente ". Sem dúvida, o nome ''Nippon'' (Terra do Sol Nascente) teve sua origem nesta ocasião. À medida que o número de sacerdotes e freiras aumentava, ocorreram divergências entre eles e, para organizá-los, foram criados os ofícios de ''Sōjō'' (arcebispo) e ''Sōzu'' (bispo). Desde a introdução do budismo no reinado do ''Imperador Kimmei'' até a época da qual estamos falando, transcorreram setenta e cinco anos. Durante os primeiros trinta e dois anos desse período, o budismo não conseguiu obter uma base no Japão, mas a partir de ''584'' se estendeu gradualmente por todo o Império, até que em ''627'' havia no Japão 46 templos, 816 monges e 569 monjas.
 
Vamos agora observar algumas características da vida da nação e a profunda influência que sofreu com a introdução da cultura chinesa e do budismo. Não é demais dizer que, pelo menos em torno da sede do governo central, as artes e ciências da ''China'' e o credo de ''Buda'' mudaram muito a simplicidade da vida japonesa e conferiram a ela um caráter de refinamento e pompa até então desconhecido. A literatura chinesa não apenas ensinava ao ''Japão'' a arte de escrever e compor melodias, mas também trazia consigo um avançado senso ético de fidelidade, piedade, benevolência e justiça. O filho do ''Imperador Ōjin'', que foi o primeiro estudante japonês de literatura chinesa, adquiriu um conhecimento tão acurado das regras de composição e caligrafia que, quando um memorial foi apresentado ao trono pelos embaixadores coreanos, ele detectou a presença de ideogramas desrespeitosos e repreendeu os enviados. Suas realizações conquistaram para ele o favor de seu pai, que o nomeou herdeiro em preferência a seu irmão mais velho; no entanto, com a morte do imperador, este príncipe renunciou a seu pedido em favor de seu irmão. Para tal autonegação, sua erudição o havia preparado. Assim também, o erudito ''Imperador Nintoku'' viveu pelo espaço de três anos em um palácio dilapidado, a fim de que seu povo pudesse ter alívio da tributação durante a fome e conhecer o senso de amor e dever que seu aprendizado lhe ensinara. A prosperidade da nação, ele disse, era sua própria prosperidade, a pobreza da nação era a sua pobreza.
 
A doutrina de ''Confúcio'' incutiu reverência para com o Céu, respeito pelos antepassados, lealdade ao soberano, amor ao povo e cumprimento dos deveres de para com os mais velhos. Por outro lado, o budismo provou uma influência enobrecedora sobre a mente da nação. Até agora, as pessoas atribuíam ingenuamente todo acontecimento feliz ou infeliz, todo incidente afortunado ou infeliz, à vontade dos deuses, a quem apaziguavam com oferendas e faziam sacrifícios que o mal fosse evitado. Os deuses pareciam e agiam como homens. O mais alto entre eles eram os deuses celestes e terrestres; os mais baixos eram certos animais selvagens e cobras venenosas, que também foram difundidos pelo culto. Os deuses estavam próximos dos homens e alguns foram concebidos como descendentes dos primeiros. Essa noção primitiva de divindade não foi materialmente afetada pela introdução da filosofia confucionista, cujos princípios não ofereciam contradição ao culto antigo. Já com o budismo, ao contrário, falava-se de um passado e de um futuro; a doutrina anunciava que a virtude seria recompensada e vingada em um estado futuro; e ensinava que ''Buda'' era o ser supremo e que todo aquele que tivesse fé nele deveria receber bênçãos ilimitadas de suas mãos. As divindades já não eram os únicos objetos de medo e reverência, pois agora um ser de suprema sabedoria e poder pairava sobre o horizonte mental do povo. Até o próprio soberano foi visto adorando ''Buda''. Preconceitos na corte contra a doutrina hindu foram dissipados pela luz crescente derramada pelo conhecimento mais profundo do budismo, enquanto as imagens de ouro de Buda e a suntuosidade dos Templos imponentes e as solenidades dos ritos atraia as pessoas comuns para a fé. Ao mesmo tempo, a reverência do povo pelos antigos deuses da nação permanecia inabalável, de modo que o ''Xintoísmo'', o ''Confucionismo'' e o ''Budismo'' existiam lado a lado, suprindo os defeitos uns dos outros e respondendo a diferentes necessidades morais da população.
 
Junto com a escrita e a religião, várias outras artes da vida civilizada foram profusamente trazidas através da ''Coréia'' para estimular o progresso geral da nação. Entre os mais importantes está a produção de casulos e fabricação de seda, que foi amplamente estudada pelo povo e encorajada pelo ''Imperador Yūryaku''. Muitos artesãos chineses que eram agregados às famílias das antigas dinastias migraram para o ''Japão'' através da ''Coréia'', onde foram naturalizados e transmitiram seus conhecimentos sobre as artes e ciências. Na arquitetura, também, com a chegada do budismo, surgiu uma necessidade da construção de edifícios imponentes e grandiosos, cuja edificação deve ter mudado muito a aparência da capital. A arte da cerâmica deu um grande impulso, assim como o ofício do ferreiro para forjar espadas e outros artigos de ferro. Nem a medicina e o calendário foram negligenciados, enquanto a nova arte de esculpir e decorar, bem como de desenhar a imagem de Buda, deu um poderoso ímpeto à pintura e à escultura. A influência coletiva de todas essas e outras novas mudanças na vida das pessoas, pelo menos perto do centro do governo, deve ter sido muito grande. Com o desenvolvimento da arte da tecelagem, o vestuário foi melhorado com a confecção de roupas de seda. À medida que a agricultura progrediu, o arroz e outros cereais passaram a fornecer um alimento agradável; a influência do budismo produziu gradualmente um desagrado pela comida de origem animal. A introdução da ciência da arquitetura logo efetuou uma mudança marcante nas dimensões e na decoração das habitações. A transmissão do conhecimento foi facilitada pela arte da escrita. O pensamento moral, intelectual e político das classes dominantes começou a tomar uma forma mais ou menos definida a partir da chegada dos clássicos chineses, enquanto o budismo espalhou sobre a nação um encanto que foi ao mesmo tempo cativante e enobrecedor. Uma nova era da história havia começado.
 
Vamos agora voltar nossa atenção para a notável evolução política que se seguiu e foi, de fato, em grande medida ocasionada pela introdução do budismo. Nos primeiros dias do império, os cargos administrativos eram transmitidos pela hereditariedade de geração em geração. Assim, resultou que os nomes de família eram derivados de títulos oficiais, como, por exemplo, o título oficial para pessoas que realizavam ritos religiosos era ''Nakatomi'' ou ''Imbe'', cujos títulos se tornavam nomes de família dos detentores daquele cargo. Da mesma forma, ''Ōtomo'' e ''Mononobe'' eram nomes de família de oficiais que tinham controle de tropas ou encarregados dos assuntos militares. Entre os plebeus, também, havia muitos que realizavam certos tipos de trabalho para o governo, o oficio que eles legaram aos filhos por hereditariedade. Cada ocupação descrita era organizada em uma guilda e cada guilda estava sob o controle de um chefe que pertencia a uma família influente. Não apenas os escritórios públicos e as corporações privadas eram organizados de forma semelhante pelo princípio da hereditariedade, mas também não havia uma linha rígida traçada entre o patrimônio público e a posse pessoal de um nobre. Quanto mais alta a posição entre a aristocracia, mais exaltado era seu cargo e mais abundante seu tesouro. Nestas circunstâncias, não é estranho que a administração do ''Estado'' tenha gradualmente caído sob o controle das cabeças de alguns clãs poderosos. Originalmente, durante o reinado do primeiro imperador, as famílias ''Nakatomi'' e ''Imbe'' cumpriram funções religiosas, e as famílias ''Ōtomo'', ''Kume'' e ''Mononobe'' exerceram funções militares. A influência dessas famílias era então quase igual. Mas os eventos subsequentes resultaram no declínio dos ''Kume'', enquanto os ''Ōtomo'' passaram a ser o principal responsável pelo controle dos assuntos coreanos. A administração doméstica permaneceu principalmente nas mãos dos ''Mononobe'' e da nova família ''Soga'', descendentes de ''Takenouchi no Sukune'', o hábil ministro da ''Imperatriz Jingū''. Os ''Mononobe'' estavam à frente de todas as famílias nobres com o título honorário de ''Ōmuraji'' (Grande Chefe Espiritual do Império), e os ''Soga'', daqueles igualmente designados como ''ŌOmi'' (Grande Chefe Militar Imperial). Era inevitável que o ciúme mútuo das duas casas principais os levasse a um choque de interesses, mas com a introdução do budismo esta hostilidade foi grandemente acentuada. Devemos lembrar que a família ''Mononobe'' aderiu firmemente aos princípios conservadores e se opôs à propagação do budismo, já os ''Soga'', ao contrário, zelosamente apoiava. Por muito tempo essa disputa não alcançou proporções sérias, pois ambas as famílias se curvaram implicitamente aos comandos imperiais. Mas durante o reinado do ''Imperador Yōmei'' a vontade imperial pendeu mais para os pro-budismo, tanto a imperatriz viúva ''Kitashi Hime'' que era da família ''Soga'' como seu falecido marido, o ''Imperador Bidatsu'' também estava inclinado à adoração de ''Buda''. Aos ''Mononobe'' não sobrou outra alternativa do que intensificar a luta.
 
Com a morte do ''Imperador Yōmei'', ''Mononobe Moriya'' procurou garantir a sucessão de um irmão do soberano falecido, o ''Príncipe Anahobe'', contra o ''Príncipe Hatsusebe'', que se tornaria depois da contenda o ''Imperador Sushun''. Sua trama foi descoberta e ele foi derrotado e morto. ''Soga no Umako'', que sucedeu seu pai como ''Ōomi'', acabou matando ''Mononobe no Moriya'' na ''Batalha de Shigisan''. ''Umako'' então coroou o ''Imperador Sushun'' ao trono. Mas o príncipe não suportou por muito tempo a conduta arbitrária de ''Umako'', e muitas vezes falou que queria vê-lo morto. Antes que o ''Imperador'' cumprisse as ameaças ''Umako'' ordenou a ''Yamato no Aya no Ataikoma'' matar ''Sushun'' em ''592''. ''Toyomike Kashikiya'', neta de ''Soga no Iname'' e viúva do ''Imperador Bidatsu'', subiu ao trono como ''Imperatriz Suiko'', apesar de existirem sucessores diretos na linhagem masculina. Essa foi a primeira ocorrência do cetro sendo segurado por uma mulher. Com a morte de ''Umako'', seu filho ''Soga no Emishi'' o sucedeu e exerceu uma influência ainda maior do que seu pai. ''Emishi'' esmagou uma oposição oferecida por seu próprio tio, e colocou na sucessão da imperatriz um príncipe de sua escolha, o ''Príncipe Tamura'' que subiu ao trono como ''Imperador Shōmei'', ''Emishi'' passou a exercer ujm poder maior no governo. Após a morte de ''Shōmei'', sua consorte e sobrinha subiu ao trono como ''Imperatriz Kogyoku''. O filho de ''Emishi'', ''Soga no Iruka'', que agora desempenhava as funções administrativas, exercia um poder ainda maior do que seu pai. ''Soga no Iruka'', assim como seu pai, traçou planos para que o trono fosse entregue ao ''Príncipe Furuhito'', um parente de sua família. Mas existia um obstáculo o ''Príncipe Yamashiro'', cuja bondade e discrição haviam conquistado o respeito popular. Foram dados passos para que esse príncipe fosse assassinado. Então ''Nakatomi no Kamatari'', conferenciou com o ''Príncipe Naka-no-Ōe'', filho do ''Imperador Shōmei'', a necessidade de se livrar de ''Iruka''. Este complô culminou com o assassinato de ''Iruka'' na sala do trono num dia em que os embaixadores coreanos foram recebidos na corte, o que ficou conhecido como ''Incidente Isshi''. O pai de ''Iruka'', ''Emishi'', se suicidou incendiando a casa poucos dias depois, e com eles a glória dos ''Soga'' desapareceu.
 
E assim terminou um período interessante da história em que as relações ativas, primeiro com a ''Coréia'' e depois com a ''China'', começaram a produzir no ''Japão'' um efeito direto e profundo sobre sua sociedade e sua política. Agentes da civilização avançada foram generosamente introduzidos e, em meio a esse processo, uma grave crise que estava prestes a superar as instituições centrais do sistema estatal foi evitada apenas por um ato anômalo de alguns patriotas. Foram estes últimos que inauguraram no período seguinte o grande trabalho de reconstruir todo o sistema de governo e administração segundo o padrão das instituições chinesas. A civilização chinesa, em todo o seu refinamento, foi então estudada com tanto entusiasmo em torno da capital do que antes, enquanto o país em geral, sob os efeitos imprevistos dessas reformas artificiais, passou gradualmente para um período posterior de sua história. Antes de retomar a história do período de reforma, nós, como de costume, juntamos uma tabela dos soberanos do período que está sendo examinado neste capítulo.
 
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14. Imperador Chūai (192-270 d.C.)<br>
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15. Imperador Ojin. (270-313 d.C.)<br>
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16. Imperador Nintoku (313-400 d.C.)<br>
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17. Imperador Richû. (400-405 d.C.)<br>
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18. Imperador Hanshō. (405-411 d.C.)<br>
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19. Imperador Inkyō. (411-453 d.C.)<br>
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20. Imperador Ankō. (453-456 d.C.)<br>
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21. Imperador Yūryaku. (456-480 d.C.)<br>
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