Japão Através da História do Governo Japonês/Relações com a Coréia e a China

III. Relações com a Coréia e a ChinaEditar

As relações externas do Japão começaram naturalmente com a vizinha península da Coréia, que então era composta por diversos reinos que competiam entre si. As relações políticas do Japão com alguns desses pequenos Estados devem ter começado muito cedo, mas os relatos tradicionais a respeito deles são escassos e indignos de confiança. É provável que alguns dos chefes coreanos tenham sido, durante algum tempo, tributários do Japão. As relações com a Coréia, no entanto, parecem ter se tornado alarmante quando se suspeitou que as tribos de Kyūshū haviam se revoltado encorajadas pelo Reino de Silla (também conhecido por Shiragi), o reino mais guerreiro da península, em seus repetidos atos de rebelião contra o imperador do Japão. Sob essa ótica podemos entender a famosa lenda da expedição japonesa à Coréia, que afirmam ter ocorrido por volta de 200 d.C., sob a liderança da Imperatriz Jingū e de seu ministro Takenouchi no Sukune.

A tradição diz que, como o Kumaso de Tsukushi em Kyūshū, novamente se levantou em armas, o Imperador Chūai foi até lá pessoalmente e, através de seu ministro, orou pela orientação dos deuses. Então, os deuses inspiraram a Imperatriz Jingū, que havia se juntado à expedição imperial, e esta declarou que, se o Reino de Silla fosse conquistado, os Kumaso se submeteriam sem maiores resistência. O Imperador Chūai, no entanto, hesitou em aceitar esse conselho divino, e as divindades puniram sua desobediência com a morte. Impressionada por este evento surpreendente, a Imperatriz Jingū deu instruções para que a morte de seu consorte fosse mantida em segredo, e tendo confiado a seus generais o dever de vigiar o palácio temporário em Kyūshū, ela enviou Takenouchi para acompanhar o transporte dos restos mortais do Imperador Chūai para Nagato por mar, enquanto ela cuidaria dos ritos finais. Sacrifícios foram novamente oferecidos ao céu, e orações dirigidas novamente às divindades, para as quais a resposta era a mesma de antes. Depois de subjugar várias tribos rebeldes, a Imperatriz Jingū chegou a um rio, onde procurou por um presságio para que a conquista da Coréia fosse tentada. Sendo as indicações afirmativas, finalmente resolveu liderar pessoalmente uma expedição pelo outro lado do mar. Rituais sacrificiais foram novamente realizados para todas as divindades, e a Imperatriz Jingū, retornando à baía de Kashihi, na Província de Chikuzen, ordenou que o povo construísse navios, e enviou marinheiros para o oeste para reconhecer a terra que pretendia invadir. Aos poucos, tendo sido escolhido um dia de sorte, a frota japonesa partiu de Wanizu, na Ilha de Tsushima, e ajudada pelo vento favorável, logo alcançou a costa de Silla. Hasankin, o rei de Silla, ficou tão alarmado com a aparição da força invasora que, sem oferecer qualquer resistência, veio pedir a paz e fez uma solene promessa de que, a partir de então, serviria ao governante do Japão como vassalo e pagaria a ele tributos anuais. Silla, declarou ele, obedeceria ao seu juramento, "até que o rio Yalu fluísse para trás e as areias subissem ao céu e se tornassem estrelas". Os reinos de Koguryo (ou Koma) e Baekje (ou Kudara) seguiram o exemplo de Silla, de forma que os três principais reinos do sul da Coréia se tornaram tributários do Japão.

Devemos observar, no entanto, que a partir deste momento nem a Coréia sempre foi obediente nem Kumaso deixou de ser rebelde. Entretanto, um evento importante numa direção totalmente diferente das relações de vassalagem resultou das relações íntimas que o Japão passou a ter com a Coreia. Foi a introdução, da arte chinesa da escrita. Muitos coreanos acompanhavam os comissários que vinham entregar os tributos anuais ao Japão, e a literatura e a arte do Ocidente foram gradualmente sendo introduzidas. Os anais atribuem o início da aprendizagem da caligrafia chinesa no Japão ao reinado do Imperador Ōjin, filho da Imperatriz Jingū, quando em 218 d.C. um célebre estudioso coreano, Achiki, visitou o Japão e foi nomeado pelo imperador tutor para seu filho, Wakairatsuko. Por sugestão de Achiki, outro erudito chamado Wani foi enviado, e que vieram com ele ferreiros, tecelões e cervejeiros, bem como dez cópias do Lun-yu (os Analectos de Confúcio) e uma cópia do Chien-tzu-wen (o livro dos mil caracteres, usado como cartilha para o ensinamento dos caracteres chineses). Achiki e Wani foram naturalizados no Japão e receberam cargos oficiais, e seus descendentes continuaram a ter cargos na corte. Cerca de 110 anos após a introdução da literatura chinesa, o Imperador Richū nomeou historiadores em todos os distritos para narrar os principais eventos da localidade. Isso foi, até onde sabemos, a primeira tentativa organizada de compilar registros regulares. Posteriormente, à medida que a máquina administrativa se tornava mais complexa, a necessidade de escrever tornou-se mais imperativa, e para um serviço desse tipo ninguém mais se ajustava do que os descendentes dos estudiosos coreanos naturalizados, que mantinham sua herança intelectual e ocupavam cargos importantes na época. Novos estudiosos também chegavam da Coréia em números crescente. Assim, no reinado do Imperador Keitai, vieram de Baekje dois especialistas nos Cinco Clássicos (os cinco principais livros do Confusionismo: o Livro das Mutações - I Ching; o Clássico da História - Shū Jīng; o Clássico dos Odes - Shī Jīng; o Clássico dos Ritos - Lǐ Jì e Os Anais da Primavera e do Outono - Chūn Qiū), e um pouco mais tarde doutores em medicina e astronomia e outros sábios se estabeleceram no país e abriram cátedras para instruir os japoneses em seus ramos de estudo. A introdução do Budismo vindo da Coréia, que logo ocorreu, e cujas circunstâncias serão narradas, deu um impulso adicional ao aprendizado. Alguns dos homens talentosos da corte, particularmente o sábio Príncipe Shōtoku regente da Imperatriz Suiko, começaram a se distinguir como eruditos talentosos em clássicos chineses e cânones budistas. No entanto, até agora, a língua nativa e a gramática chinesa, tão radicalmente diferentes uma da outra, não iniciaram sua longa história de luta para se reconciliar entre si. O vernáculo dificilmente poderia ser expresso em caracteres chineses, e as histórias e inscrições eram escritas apenas no puro estilo Chinês.

A vinda do Budismo foi um acontecimento que acelerou uma profunda mudança na história e na civilização do Japão, já iniciada por suas estreitas relações com o continente asiático. O Budismo foi introduzido pela primeira vez no início do século VI por um estudioso chinês, Sumatah, que, no entanto, fez pouco progresso na propagação da fé alienígena entre o Povo de Yamato. Posteriormente, durante o reinado do Imperador Kimmei, no ano 552 d.C., recebeu uma estátua de bronze de Buda e uma cópia dos Sutras, como um presente do rei Song Myong de Baekje e junto com uma mensagem deste dizendo: que o credo de Buda superou todas as crenças religiosas, e essa felicidade ilimitada neste mundo, assim como no próximo, foi assegurada a seus discípulos, entre os quais já estavam todas as nações da Índia à Coréia. O imperador ficou muito impressionado e convocou seus ministros a uma deliberação sobre a atitude apropriada a ser assumida pelo Japão em relação a esse novo problema da civilização ocidental. Soga-no-Iname, presidente do ministério, aconselhou a aceitação da fé estrangeira, dizendo que o Japão não deveria ficar sozinho quando todas as nações do ocidente adotaram a doutrina de Buda. Contra essa visão, Mononobe-no-Okoshi e Nakatomi Kamako, ministros de Estado, argumentaram que desde os tempos mais antigos os japoneses adoravam seus deuses celestes e terrestres, e que se tivessem agora que reverenciar qualquer divindade estrangeira, a ira dos deuses poderia ser provocada. O Imperador aprovou a última visão, mas deu a imagem de Buda a Iname com permissão para adorá-lo como uma forma de experiência. Iname ficou muito satisfeito com o presente e não perdeu tempo em converter sua residência em um templo, onde colocou a imagem. Logo depois, uma pestilência assolou o país, matando inúmeras pessoas. Os oponentes do budismo afirmaram ao soberano que isto era obviamente um castigo infligido pelo Céu e o templo budista foi incendiado e a imagem atirada no canal em Naniwa. O Imperador Kimmei, no entanto, não abandonou completamente sua predileção pela adoração à Buda, e foi enviado secretamente da Coréia outra imagem para Iname. Desta forma a luta entre budistas e anti budistas continuou no reinado do Imperador Bidatsu, imagens de Buda, cópias dos Sutras, sacerdotes e fabricantes de parafernália budista vieram dos reinos de Baekje e Silla. Posteriormente (em 584), Soga-no-Umako, que sucedera seu pai, Iname, como presidente do conselho de ministros, construiu templos e pagodes dedicados a Buda. Outra pestilência ocorreu o que reviveu o movimento anti-budista. Sob a influência de um edito imperial que proibia a adoração a Buda; todos os templos e pagodes foram demolidos ou queimados, e as imagens de Buda foram jogadas no canal. Os sofrimentos do povo, no entanto, não foram aliviados. Uma praga que provocava furúnculos se seguiu, e na medida em que a dor causada pelas feridas se assemelhava à de queimação ou espancamento, tanto os idosos quanto os jovens concluíram que eles foram vítimas de uma punição de queimadura infligida por Buda. A partir disso, pode-se inferir que o budismo já havia estabelecido uma influência sobre a imaginação popular. Pouco depois, Soga-no-Umako, tendo solicitado permissão, foi autorizado a adorar Buda com sua família.

Quando o Imperador Yōmei subiu ao trono em 586, sofreu tanto com enfermidades que se sentiu tentado a adorar o Buda. A essa altura, a influência dos budistas havia se tornado tão forte que eles, sob o pretexto de que seus oponentes eram desleais aos desejos do trono, aproveitaram a ocasião para destruir os dois mais poderosos anti-budistas. Então, pela energia combinada do Príncipe Shōtoku e do ministro-presidente, Soga-no-Umako, a propagação do budismo deu grandes passos, até que a Imperatriz Suiko encorajou abertamente sua aceitação entre as pessoas de todas as classes. Em 607, foi enviado pela primeira vez na história um enviado imperial diretamente para a China, onde a dinastia Sui acabara de unificar o grande império, com o objetivo de obter cópias dos Sutras. Este foi o início das relações com a China. O preâmbulo do despacho enviado naquela ocasião pela Imperatriz do Japão para o soberano da China foi redigido nas seguintes palavras: "O Soberano do Império do Sol Nascente envia saudações ao Soberano do Império do Sol Poente ". Sem dúvida, o nome Nippon (Terra do Sol Nascente) teve sua origem nesta ocasião. À medida que o número de sacerdotes e freiras aumentava, ocorreram divergências entre eles e, para organizá-los, foram criados os ofícios de Sōjō (arcebispo) e Sōzu (bispo). Desde a introdução do budismo no reinado do Imperador Kimmei até a época da qual estamos falando, transcorreram setenta e cinco anos. Durante os primeiros trinta e dois anos desse período, o budismo não conseguiu obter uma base no Japão, mas a partir de 584 se estendeu gradualmente por todo o Império, até que em 627 havia no Japão 46 templos, 816 monges e 569 monjas.

Vamos agora observar algumas características da vida da nação e a profunda influência que sofreu com a introdução da cultura chinesa e do budismo. Não é demais dizer que, pelo menos em torno da sede do governo central, as artes e ciências da China e o credo de Buda mudaram muito a simplicidade da vida japonesa e conferiram a ela um caráter de refinamento e pompa até então desconhecido. A literatura chinesa não apenas ensinava ao Japão a arte de escrever e compor melodias, mas também trazia consigo um avançado senso ético de fidelidade, piedade, benevolência e justiça. O filho do Imperador Ōjin, que foi o primeiro estudante japonês de literatura chinesa, adquiriu um conhecimento tão acurado das regras de composição e caligrafia que, quando um memorial foi apresentado ao trono pelos embaixadores coreanos, ele detectou a presença de ideogramas desrespeitosos e repreendeu os enviados. Suas realizações conquistaram para ele o favor de seu pai, que o nomeou herdeiro em preferência a seu irmão mais velho; no entanto, com a morte do imperador, este príncipe renunciou a seu pedido em favor de seu irmão. Para tal autonegação, sua erudição o havia preparado. Assim também, o erudito Imperador Nintoku viveu pelo espaço de três anos em um palácio dilapidado, a fim de que seu povo pudesse ter alívio da tributação durante a fome e conhecer o senso de amor e dever que seu aprendizado lhe ensinara. A prosperidade da nação, ele disse, era sua própria prosperidade, a pobreza da nação era a sua pobreza.

A doutrina de Confúcio incutiu reverência para com o Céu, respeito pelos antepassados, lealdade ao soberano, amor ao povo e cumprimento dos deveres de para com os mais velhos. Por outro lado, o budismo provou uma influência enobrecedora sobre a mente da nação. Até agora, as pessoas atribuíam ingenuamente todo acontecimento feliz ou infeliz, todo incidente afortunado ou infeliz, à vontade dos deuses, a quem apaziguavam com oferendas e faziam sacrifícios que o mal fosse evitado. Os deuses pareciam e agiam como homens. O mais alto entre eles eram os deuses celestes e terrestres; os mais baixos eram certos animais selvagens e cobras venenosas, que também foram difundidos pelo culto. Os deuses estavam próximos dos homens e alguns foram concebidos como descendentes dos primeiros. Essa noção primitiva de divindade não foi materialmente afetada pela introdução da filosofia confucionista, cujos princípios não ofereciam contradição ao culto antigo. Já com o budismo, ao contrário, falava-se de um passado e de um futuro; a doutrina anunciava que a virtude seria recompensada e vingada em um estado futuro; e ensinava que Buda era o ser supremo e que todo aquele que tivesse fé nele deveria receber bênçãos ilimitadas de suas mãos. As divindades já não eram os únicos objetos de medo e reverência, pois agora um ser de suprema sabedoria e poder pairava sobre o horizonte mental do povo. Até o próprio soberano foi visto adorando Buda. Preconceitos na corte contra a doutrina hindu foram dissipados pela luz crescente derramada pelo conhecimento mais profundo do budismo, enquanto as imagens de ouro de Buda e a suntuosidade dos Templos imponentes e as solenidades dos ritos atraia as pessoas comuns para a fé. Ao mesmo tempo, a reverência do povo pelos antigos deuses da nação permanecia inabalável, de modo que o Xintoísmo, o Confucionismo e o Budismo existiam lado a lado, suprindo os defeitos uns dos outros e respondendo a diferentes necessidades morais da população.

Junto com a escrita e a religião, várias outras artes da vida civilizada foram profusamente trazidas através da Coréia para estimular o progresso geral da nação. Entre os mais importantes está a produção de casulos e fabricação de seda, que foi amplamente estudada pelo povo e encorajada pelo Imperador Yūryaku. Muitos artesãos chineses que eram agregados às famílias das antigas dinastias migraram para o Japão através da Coréia, onde foram naturalizados e transmitiram seus conhecimentos sobre as artes e ciências. Na arquitetura, também, com a chegada do budismo, surgiu uma necessidade da construção de edifícios imponentes e grandiosos, cuja edificação deve ter mudado muito a aparência da capital. A arte da cerâmica deu um grande impulso, assim como o ofício do ferreiro para forjar espadas e outros artigos de ferro. Nem a medicina e o calendário foram negligenciados, enquanto a nova arte de esculpir e decorar, bem como de desenhar a imagem de Buda, deu um poderoso ímpeto à pintura e à escultura. A influência coletiva de todas essas e outras novas mudanças na vida das pessoas, pelo menos perto do centro do governo, deve ter sido muito grande. Com o desenvolvimento da arte da tecelagem, o vestuário foi melhorado com a confecção de roupas de seda. À medida que a agricultura progrediu, o arroz e outros cereais passaram a fornecer um alimento agradável; a influência do budismo produziu gradualmente um desagrado pela comida de origem animal. A introdução da ciência da arquitetura logo efetuou uma mudança marcante nas dimensões e na decoração das habitações. A transmissão do conhecimento foi facilitada pela arte da escrita. O pensamento moral, intelectual e político das classes dominantes começou a tomar uma forma mais ou menos definida a partir da chegada dos clássicos chineses, enquanto o budismo espalhou sobre a nação um encanto que foi ao mesmo tempo cativante e enobrecedor. Uma nova era da história havia começado.

Vamos agora voltar nossa atenção para a notável evolução política que se seguiu e foi, de fato, em grande medida ocasionada pela introdução do budismo. Nos primeiros dias do império, os cargos administrativos eram transmitidos pela hereditariedade de geração em geração. Assim, resultou que os nomes de família eram derivados de títulos oficiais, como, por exemplo, o título oficial para pessoas que realizavam ritos religiosos era Nakatomi ou Imbe, cujos títulos se tornavam nomes de família dos detentores daquele cargo. Da mesma forma, Ōtomo e Mononobe eram nomes de família de oficiais que tinham controle de tropas ou encarregados dos assuntos militares. Entre os plebeus, também, havia muitos que realizavam certos tipos de trabalho para o governo, o oficio que eles legaram aos filhos por hereditariedade. Cada ocupação descrita era organizada em uma guilda e cada guilda estava sob o controle de um chefe que pertencia a uma família influente. Não apenas os escritórios públicos e as corporações privadas eram organizados de forma semelhante pelo princípio da hereditariedade, mas também não havia uma linha rígida traçada entre o patrimônio público e a posse pessoal de um nobre. Quanto mais alta a posição entre a aristocracia, mais exaltado era seu cargo e mais abundante seu tesouro. Nestas circunstâncias, não é estranho que a administração do Estado tenha gradualmente caído sob o controle das cabeças de alguns clãs poderosos. Originalmente, durante o reinado do primeiro imperador, as famílias Nakatomi e Imbe cumpriram funções religiosas, e as famílias Ōtomo, Kume e Mononobe exerceram funções militares. A influência dessas famílias era então quase igual. Mas os eventos subsequentes resultaram no declínio dos Kume, enquanto os Ōtomo passaram a ser o principal responsável pelo controle dos assuntos coreanos. A administração doméstica permaneceu principalmente nas mãos dos Mononobe e da nova família Soga, descendentes de Takenouchi no Sukune, o hábil ministro da Imperatriz Jingū. Os Mononobe estavam à frente de todas as famílias nobres com o título honorário de Ōmuraji (Grande Chefe Espiritual do Império), e os Soga, daqueles igualmente designados como ŌOmi (Grande Chefe Militar Imperial). Era inevitável que o ciúme mútuo das duas casas principais os levasse a um choque de interesses, mas com a introdução do budismo esta hostilidade foi grandemente acentuada. Devemos lembrar que a família Mononobe aderiu firmemente aos princípios conservadores e se opôs à propagação do budismo, já os Soga, ao contrário, zelosamente apoiava. Por muito tempo essa disputa não alcançou proporções sérias, pois ambas as famílias se curvaram implicitamente aos comandos imperiais. Mas durante o reinado do Imperador Yōmei a vontade imperial pendeu mais para os pro-budismo, tanto a imperatriz viúva Kitashi Hime que era da família Soga como seu falecido marido, o Imperador Bidatsu também estava inclinado à adoração de Buda. Aos Mononobe não sobrou outra alternativa do que intensificar a luta.

Com a morte do Imperador Yōmei, Mononobe Moriya procurou garantir a sucessão de um irmão do soberano falecido, o Príncipe Anahobe, contra o Príncipe Hatsusebe, que se tornaria depois da contenda o Imperador Sushun. Sua trama foi descoberta e ele foi derrotado e morto. Soga no Umako, que sucedeu seu pai como Ōomi, acabou matando Mononobe no Moriya na Batalha de Shigisan. Umako então coroou o Imperador Sushun ao trono. Mas o príncipe não suportou por muito tempo a conduta arbitrária de Umako, e muitas vezes falou que queria vê-lo morto. Antes que o Imperador cumprisse as ameaças Umako ordenou a Yamato no Aya no Ataikoma matar Sushun em 592. Toyomike Kashikiya, neta de Soga no Iname e viúva do Imperador Bidatsu, subiu ao trono como Imperatriz Suiko, apesar de existirem sucessores diretos na linhagem masculina. Essa foi a primeira ocorrência do cetro sendo segurado por uma mulher. Com a morte de Umako, seu filho Soga no Emishi o sucedeu e exerceu uma influência ainda maior do que seu pai. Emishi esmagou uma oposição oferecida por seu próprio tio, e colocou na sucessão da imperatriz um príncipe de sua escolha, o Príncipe Tamura que subiu ao trono como Imperador Shōmei, Emishi passou a exercer ujm poder maior no governo. Após a morte de Shōmei, sua consorte e sobrinha subiu ao trono como Imperatriz Kogyoku. O filho de Emishi, Soga no Iruka, que agora desempenhava as funções administrativas, exercia um poder ainda maior do que seu pai. Soga no Iruka, assim como seu pai, traçou planos para que o trono fosse entregue ao Príncipe Furuhito, um parente de sua família. Mas existia um obstáculo o Príncipe Yamashiro, cuja bondade e discrição haviam conquistado o respeito popular. Foram dados passos para que esse príncipe fosse assassinado. Então Nakatomi no Kamatari, conferenciou com o Príncipe Naka-no-Ōe, filho do Imperador Shōmei, a necessidade de se livrar de Iruka. Este complô culminou com o assassinato de Iruka na sala do trono num dia em que os embaixadores coreanos foram recebidos na corte, o que ficou conhecido como Incidente Isshi. O pai de Iruka, Emishi, se suicidou incendiando a casa poucos dias depois, e com eles a glória dos Soga desapareceu.

E assim terminou um período interessante da história em que as relações ativas, primeiro com a Coréia e depois com a China, começaram a produzir no Japão um efeito direto e profundo sobre sua sociedade e sua política. Agentes da civilização avançada foram generosamente introduzidos e, em meio a esse processo, uma grave crise que estava prestes a superar as instituições centrais do sistema estatal foi evitada apenas por um ato anômalo de alguns patriotas. Foram estes últimos que inauguraram no período seguinte o grande trabalho de reconstruir todo o sistema de governo e administração segundo o padrão das instituições chinesas. A civilização chinesa, em todo o seu refinamento, foi então estudada com tanto entusiasmo em torno da capital do que antes, enquanto o país em geral, sob os efeitos imprevistos dessas reformas artificiais, passou gradualmente para um período posterior de sua história. Antes de retomar a história do período de reforma, nós, como de costume, juntamos uma tabela dos soberanos do período que está sendo examinado neste capítulo.


14. Imperador Chūai (192-270 d.C.)
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15. Imperador Ojin. (270-313 d.C.)
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16. Imperador Nintoku (313-400 d.C.)
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17. Imperador Richû. (400-405 d.C.)
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18. Imperador Hanshō. (405-411 d.C.)
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19. Imperador Inkyō. (411-453 d.C.)
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20. Imperador Ankō. (453-456 d.C.)
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21. Imperador Yūryaku. (456-480 d.C.)
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22. Imperador Seinei. (480-485 d.C.)
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23. Imperador Kensō. (485-488 d.C.)
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24. Imperador Ninken. (488-499 d.C.)
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25. Imperador Buretsu. (499-507 d.C.)
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26. Imperador Keitai. (507-534 d.C.)
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27. Imperador Ankan. (534-536 d.C.)
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28. Imperador Senka. (536-540 d.C.)
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29. Imperador Kimmei. (540-572 d.C.)
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30. Imperador Bidatsu. (572-586 d.C.)
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31. Imperador Yōmei. (586-588 d.C.)
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32. Imperador Sushun. (588-591 d.C.)
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33. Imperatriz Suiko. (591-629 d.C.)
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34. Imperador Shōmei. (629-642 d.C.)
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35. Imperatriz Kogyoku. (642-645 d.C.)