Uma História do Japão até 1334/Capítulo XX - Após a Invasão Mongol/2. O Declínio dos Regentes Hōjō

2. O Declínio dos Regentes HōjōEditar

Pouco se sabe sobre o desenrolar dos acontecimentos em Kamakura na década em que se seguiu a retirada das tropas mongóis em 1284, mas parece que a capacidade de comando da liderança do Clã Hōjō deve ter se enfraquecido após a morte de Hōjō Tokimune (1251 - 1284). Ele era um homem capaz, um personagem forte, e após sua morte prematura foi sucedido como Shikken (regente do Shogun) por seu jovem filho de quatorze anos, Hōjō Sadatoki (1271 - 1311), uma escolha infeliz em um momento crítico. Embora não haja muita informação sobre Sadatoki, está claro que nem ele nem nenhum de seus conselheiros eram fortes o suficiente para conter os guerreiros mais ambiciosos. Havia rivalidades de longa data, mesmo dentro do Clã Hōjō, e o lapso de lealdade durante as invasões para com a regência foi o início do que mais tarde provou ser um declínio acentuado da própria regência.

Que existiu uma forte oposição latente aos Hōjō pode ser percebido nas crônicas de uma geração ou mais antes dos ataques mongóis. O Clã Miura, com inveja do poder do Clã Adachi (da qual um de seus ramos originou os Hōjō), planejou uma revolta em 1246 e participou de uma conspiração para assassinar o Regente Hōjō Tokiyori (1227 - 1263). É verdade que a sua ascensão foi prontamente reprimida, porque o governo de Hōjō ainda era rápido e firme; mas enquanto o governo deslizava suavemente seu curso na superfície, haviam poderosos correntes de rivalidade e inveja em toda clã samurai. Enquanto a autoridade dos regentes se espalhava pelo país, seus representantes na capital e nas longínquas províncias ocidentais passavam a exercer poderes cada vez mais amplos e tendiam a se ressentir do controle de Kamakura.

No início de 1272, um destacado membro do Rokuhara Tandai, a temível polícia secreta comandada pelo Clã Hōjō, foi condenado à morte por conspirar contra Tokimune e pouco tempo após a Segunda Invasão Mongol (1275), outro Tandai foi executado por um crime similar. Até mesmo as decisões fáceis e unânimes do Hikitsuke (Tribunal Superior) de Kamakura estavam levando a dissensões, à medida que a liderança Hōjō se deteriorava. Na época de Sadatoki, a firmeza resoluta dos primeiros regentes havia desaparecido.

Sadatoki era suficientemente capaz para cumprir suas funções, mas não herdara o alto senso de dever de seu pai Tokimune, que se desgastou com seus esforços; nem mostrou o caráter sério de seu talentoso avô Tokiyori. Sadatoki parecia estar mais disposto a confiar as tarefas mais fatigantes do governo a seus conselheiros, que em sua maioria eram austeros, mas não necessariamente homens justos.

Sadatoki era apenas um menino quando se tornou regente (1284), e na década crítica que se seguiu tinha dois conselheiros que estavam empenhados em projetos próprios, Yasumori o líder do Clã Adachi e tio por parte de mãe de Sadatoki de um lado e Yoritsuna, um Taira que ocupava um alto posto administrativo do outro. Estes conselheiros eram rivais mortais, e ambos merecidamente chegaram a um final violento.

Adachi Yasumori foi acusado por Yoritsuna de conspirar para se tornar o Shogun em razão de sua ligação com os Minamoto, Sadatoki autorizou que Taira Yoritsuna atacasse o Castelo Adachi. Existe uma grande possibilidade de que Yoritsuna tenha falsificado as provas contra Yasumori devido a sua rivalidade política. O ataque ocorreu em novembro de 1285 e ficou conhecido como Incidente de Shimotsuki. Os Adachi foram pegos de surpresa e a lucha durou cinco horas ao final Yasumori foi obrigado a cometer Sepukku junto com muitos membros de sua família e seguidores. No total mais de 500 pessoas morreram e o Clã Adachi quase foi exterminado. Já Yoritsuna foi morto pelos soldados de Sadatoki junto com 90 de seus seguidores no chamado Incidente da Porta Heizen ( 平 禅門 の 乱, Heizenmon no Ran) em 1293.

Nesta época Sadatoki, agora com vinte e quatro anos de idade, assumiu o comando total do cargo e executou as funções de Shikken até 1301, quando decidiu se converter monge. Um jovem primo Hōjō, Morotoki, o sucedeu como Shikken, embora Sadatoki continuasse a tomar decisões sobre assuntos importantes até sua morte em 1311. Seu filho Takatoki (nascido em 1303) foi educado para sua sucessão por um guardião em quem Sadatoki confiava, dessa forma durante os anos desta infância a regência estava sob influência de intrigas. O prestígio dos Hōjō caiu tristemente, o cargo de regente foi degradado por seus ocupantes temporários, e é claro que quando Takatoki foi formalmente instalado em 1316, os grandes dias de Kamakura já haviam terminado. Os principais vassalos não mais sentiam lealdade ou respeito pela regência Hōjō. Nem todos se sentiram lesados ​​pela falta de recompensa pelo serviço militar prestado contra os mongóis; mas esta foi uma reclamação dos samurais de Kyūshū em particular. Em todos os lados, no entanto, o antagonismo com os líderes Hōjō estava crescendo, em grande parte porque era evidente que o Bakufu havia perdido sua habilidade administrativa e sua integridade judicial. Não há dúvida de que entre as causas do descontentamento estava no fracasso da Corte Shogunal dispensar uma justiça imparcial.

Tramas contra os regentes foram descobertas de tempos em tempos durante as duas primeiras décadas do século XIV, mas de alguma forma o Clã Hōjō permaneceu no poder, seu ímpeto sendo ainda mais forte do que qualquer oposição combinada. É uma das ironias habituais da história que o que causou a sua destruição não foi a ação de senhores feudais descontentes, mas uma discussão na corte sobre a sucessão ao trono - uma disputa, além disso, que resultou no testamento político do imperador aposentado Go-Saga, que sempre foi um amigo fiel e apoiador dos Shikken Hōjō do seu tempo.

Go-Saga reinou de 1242 a 1246 e esteva no poder como Imperador Aposentado até sua morte em 1272, desta forma esteve no poder quando Yasutoki (3º Shikken de 1224 a 1242), Tokiyori (5º Shikken de 1246 a 1256) e Tokimune (8º Shikken de 1268 a 1284) controlavam o Bakufu. Foi o amigo mais valioso dos líderes Hōjō durante seus dias mais prósperos, quando as relações entre Kyoto e Kamakura nunca foram tão harmoniosas. No entanto, inconscientemente deu-lhes um golpe que muitos anos depois se mostraria mortal. Após o mais breve dos reinados, abdicou em favor de seu filho Go-Fukakusa, que reinou de 1246 a 1259 e depois o fez abdicar em favor de seu irmão mais novo, Kameyama. Kameyama foi o soberano titular de 1259 a 1274. Havia uma aparente amizade entre os irmãos, mas a discórdia oculta corroía Go-Fukakusa, enquanto Go-Saga vivia, sua autoridade era tal que nenhum problema de sucessão poderia se manifestar. Seu filho favorito era Kameyama, e foi para assegurar a sucessão a Kameyama que Go-Fukakusa foi obrigado a abdicar e assim se tornar o imperador aposentado júnior (e sem nenhum poder).

Nesta época a escolha teve a aprovação do Bakufu. Deve ser lembrado que a sucessão não era regida por nenhuma regra absoluta de primogenitura, mas principalmente, se não inteiramente, pela escolha do imperador aposentado sênior. Se fosse seguir o costume, no entanto, a sucessão cairia sobre o irmão mais velho e seus descendentes. Portanto, Go-Fukakusa saiu naturalmente prejudicado e sua decepção foi compartilhada por numerosos partidários na Corte. Embora nenhuma disputa fosse possível durante a vida de Go-Saga, mas quando este morreu, a disputa eclodiu com grande vigor. Go-Saga havia deixado um testamento a ser aberto depois do primeiro período de luto, no quadragésimo nono dia após a sua morte. O conteúdo deste documento era tão alarmante para um lado como era agradável ​​ao outro.