Fotografia Panorâmica Imersiva 360x180°/Sua primeira panorâmica

Vamos começar executando na prática um exemplo bem simples. Minha ideia é que esse exemplo te ajude a compreender conceitos que serão passados depois. Digamos que temos uma cena que queremos fotografar, mas que o objeto desejado não cabe numa única foto e não dá pra chegar mais para trás para encaixá-lo. Isso pode acontecer num cômodo da sua casa ou numa vista da praia. Algumas máquinas hoje em dia resolvem isso sozinhas. Conheço alguns modelos da Sony, como a HX100V ou TX100V, que têm o que a Sony chama de Sweep Panorama. Eu traduziria isso para “Panorama em Varredura”. A maioria dos celulares também tem um modo de foto panorâmica ou você pode instalar aplicativos que fazem até panorâmicas da esfera completa, como o Google Camera no Android ou o Photosphere no iOS. Todos, tanto nos celulares como nas câmeras, automatizaram diretamente na máquina o que eu mostrarei aqui.

A ideia é não usar a função panorâmica da sua câmera ou celular. Com qualquer máquina ou lente é possível resolver a questão proposta e criar uma imagem cobrindo todo o ângulo desejado. Para isso é necessário tirar várias fotos, mas é bom já tomar alguns cuidados para facilitar e melhorar o resultado final:

  1. tente não girar a máquina em torno de você e sim em torno dela mesma,
  2. procure, claro, manter o alinhamento da máquina no giro,
  3. cada imagem deve sobrepor parte da próxima em cerca de 30% (um terço) da foto.

A sobreposição vai permitir a costura das imagens, dando insumos para que os pontos em comum entre cada par de imagens sejam encontrados e o alinhamento e distorção correto seja feito nas fotos, permitindo a perfeita junção. Comentando cada recomendação:

  1. O giro em torno da máquina é menos importante por agora, mas em algumas situações, principalmente se houver alguns objetos perto e outros longe, pode causar problemas na junção. Mais adiante falarei mais sobre isso.
  2. O alinhamento é bom, pois se numa imagem o horizonte está no meio da foto, em outra está mais acima e noutra mais abaixo, ao juntar teremos buracos em cima e embaixo e a imagem final terá que ter um corte maior, ficando possivelmente mais fina do que precisava.
  3. Essa última recomendação é a mais importante nesse momento. É necessário sobrepor uma parte das imagens. Não sei se alguém acharia que dá para juntar duas imagens encostando suas bordas, mas na prática isso é quase impossível. Não é tão importante que seja exatamente um terço. Pode ser mais e pode ser menos, mas se for muito pouco pode ficar difícil encontrar pontos em comum entre imagens adjacentes, o que é essencial para a junção.

Depois das fotos feitas, é necessário passá-las para o computador, o que espero que você saiba fazer. Não é muito viável dar esse tipo de instrução aqui, pois há muitos tipos de equipamentos diferentes e formas diferentes de transferir as imagens.

Utilizaremos então a primeira e mais fundamental ferramenta apresentada aqui: o costurador, comumente chamado de stitcher, que é o termo em inglês.

A ferramenta proposta aqui é o Hugin, que pode ser baixado diretamente de seu site oficial: http://hugin.sourceforge.net/download/. Mais adiante, no capítulo dedicado à costura, serão mencionadas outras opções, mas este material se baseia apenas no Hugin. A ferramenta é multiplataforma, com versões para Mac, Windows, Linux e outros, dentre os quais o FreeBSD. Eu já usei ela no Windows XP 32 bits, Windows 7 64 bits, Linux e no FreeBSD. Baixe e instale a versão adequada ao seu computador. É interessante também investigar a área de download, pois a versão apontada no site pode não ser a última ou você pode, por exemplo, preferir a versão portátil para Windows (disponibilizada no formato 7z).

Ao abrir o Hugin a tela inicial dele tem a cara mostrada abaixo.

Figura 3.1 - Tela inicial do Hugin

Caso o programa não esteja em português, será necessário trocar o idioma. A maior chance é que ele esteja em inglês, e nesse caso devemos ir no menu File e depois Preferences. Uma janela se abrirá, com a aba General ativada. Em Language escolha o idioma Portuguese (Brazilian) e depois clique em OK lá embaixo à direita. É necessário fechar e reabrir o Hugin para a troca de idioma.

Na sua forma mais simples de uso ficaremos só na Interface Simples do programa, que opera como um assistente, executando basicamente três etapas. O menu Interface oferece outras opções, que veremos no capítulo sobre a costura. Se você abriu o Hugin pela primeira vez, é nesse modo que ele está operando. Se já usou antes e trocou a interface, pode retornar à Interface Simples para acompanhar o material aqui.

Primeiro clique no botão Carregar imagens. Você verá uma janela para a seleção dos arquivos. Escolha suas imagens e as abra.

Figura 3.2 - Selecionando Imagens

Dependendo da sua máquina, você já voltará direto à tela inicial do Hugin ou não. Caso as imagens tenham sido gravadas por ela com as informações que o programa precisa, então você foi feliz e pode pular o próximo passo. Caso contrário, o Hugin lhe pedirá informações sobre sua lente, como na janela mostrada abaixo:

Figura 3.3 - Janela de dados da câmera e lente

Não se preocupe se você não conhece essas informações. Se conhece, ótimo, mas um chute também vai resolver o problema. Elas são mais relevantes na criação de panoramas 360x180 graus. No caso de não saber, mantenha o tipo da lente como Normal, chute um campo de visão e uma distância focal. Deixe o multiplicador em 1 também e dê o OK.

Em seguida vem, claro, o próximo passo: “2. Alinhar...”. Clicar nesse botão vai fazer a ferramenta executar uma série de passos que podem parecer demorados, principalmente se você usou muitas imagens, mas certamente levará mais tempo realizá-los manualmente, como veremos depois, então recomendo um pouquinho de paciência.

Figura 3.4 - Janela de pré-visualização rápida do panorama. A imagem fica em destaque ao passarmos o mouse sobre ela com CRTL pressionado

A figura acima é a janela de visualização rápida de panoramas. Ela é aberta automaticamente ao final do processo de “alinhamento”, que é na verdade mais do que um simples alinhar. Basicamente o programa:

  • Encontra pontos em comum entre as imagens e linhas verticais em cada imagem
  • Reposiciona e distorce as imagens de acordo com esses pontos e linhas
  • Analisa a exposição das imagens, corrigindo se necessário
  • Auto recorta o resultado para a obtenção de uma imagem inteira

Depois desse complexo alinhamento, se tudo deu certo, então é hora de gerar o resultado final. De volta à aba Assistente do Hugin temos o botão “3. Criar panorama...”, que podemos clicar para isso.

Ao clicar, se você até agora não salvou o projeto, o programa sugere que você o faça agora. Em seguida pede o nome do arquivo de saída para gerar a imagem final. Coloque um nome sem extensão. Por padrão a imagem gerada será um TIFF com extensão .tif. Esse processamento também pode demorar um pouco, dependendo do computador que você está usando, da quantidade e tamanho das imagens do seu projeto.

A imagem final, gerada no exemplo usado nas figuras acima, é mostrado abaixo. Foi obtido com a junção de 8 fotos.

Figura 3.5 - Panorama gerado com o Hugin

Possíveis Problemas e Suas SoluçõesEditar

Claro que na vida nem tudo são flores, mas mesmo assim a vida é bela. No próprio exemplo acima eu tive que acertar alguns problemas para simular uma situação perfeita, que acreditem, acontece, mas não foi o caso e foi mais prático não mencionar os problemas e correções por questões didáticas. Também pelo mesmo motivo vou tentar não estender muito as possíveis complexidades aqui, mencionarei basicamente o que acho que pode acontecer nessa fase.

1. E se não forem encontrados pontos em comum?
Isso inclusive aconteceu no exemplo mostrado. Pode acontecer por motivos diversos e existem algumas alternativas para isso. Na seção Pontos de Controle é possível verificar algumas alternativas. A que sugiro para essa etapa do aprendizado é a marcação entre cada par de imagens que se sobrepõem, correspondente ao Método 2: via aba "Imagens" na referida seção.
Isso ainda pode falhar, dependendo das suas fotos ou do problema que aconteceu. A alternativa mais garantida é realmente a adição manual de pontos de controle.
Ao terminar com sucesso, seja a adição automática de pontos em imagens aos pares, seja a adição manual, retorne na aba “Assistente” e clique novamente em “2. Alinhar...”
2. E se a imagem ficar toda torta?
Depois de um primeiro alinhamento o resultado mostrado na janela “Pre-visualização rápida” pode estar meio torto, literalmente. Algo assim:
 
Figura 3.6 - Montagem automática gerando imagem torta
Isso vai acontecer quando o Hugin não tiver conseguido encontrar linhas verticais suficientes para o alinhamento automático. É por isso que é importante definir linhas horizontais e/ou verticais quando criamos pontos de controle manualmente. Por agora o meio mais prático para corrigir isso é na própria janela de pré-visualização rápida. Alterne para a aba “Mover/arrastar”. Clique com o botão esquerdo do mouse numa imagem e arraste para ajustar. Neste caso poderíamos arrastar o meio para cima ou as pontas para baixo. As demais imagens acompanham o arrastamento, já que estão conectadas por pontos de controle. Se necessário você pode também girar uma imagem com o botão direito, clicando e arrastando. Neste caso acima isso não foi necessário.
3. E se objetos ou linhas verticais, como prédios ou postes, ficarem tortos?
No caso de objetos isolados ficarem tortos e o problema não der pra ser resolvido com a sugestão do item (2) acima, arrastando a imagem na aba "Mover/Arrastar", então não há muita escapatória além de criar pontos de controle do tipo linhas verticais. Isso será explicado mais adiante, na criação de um panorama da esfera completa. Você pode pular para essa seção ou dar uma olhada na janela do Hugin, na aba Pontos de Controle. A dica é que linhas são marcadas na mesma imagem e não entre duas imagens distintas.
4. E se o corte ficar ruim?
O corte automático as vezes não é o que você quer. Ajustar isso, porém, é bem fácil. Basta ir na aba "Cortar" na própria janela de "Pré-visualização rápida do panorama" e deslocar as linhas de corte como quiser. O retângulo mais claro, contornado de branco, é a área que ficará após o corte. Basta deslocar suas laterais com o botão esquerdo do mouse clicando e arrastando de modo a deixar o retângulo com as dimensões desejadas.
Uma dica: se quiser uma imagem com dimensões maiores pense em não recortar as áreas pretas onde tem céu ou cores facilmente preenchíveis num editor de imagens. Você pode gerar uma imagem maior e preencher esses buracos no GIMP ou Photoshop, por exemplo.
5. E se eu quiser salvar em JPG?
O formato padrão é o TIFF, mas basta alterar a opção de formato de saída na aba "Montador" do Hugin, mostrada na Figura XX. A opção "Formato" deve ser trocada para JPG e a "Qualidade", que aparecerá ao lado ao trocar de TIFF para JPG, definida. A qualidade deve variar de 0 a 100, sendo melhor quão maior for o valor. Um valor de 90 já é bom. Costumo usar 95. Claro que é fácil converter também de *.tif para *.jpg em vários editores ou conversores de imagens, mas se for fazer isso muitas vezes e quiser o resultado em JPG, então gerar direto em JPG já poupa um passo no processo.
 
Figura 3.7 - Aba "Montador" do Hugin