Linguística IV/Por um ensino de língua portuguesa centrada no uso

Refletir é preciso!Editar

Língua materna - língua adquirida naturalmente por meio da interação com outros falantes, sem intervenção pedagógica ou reflexão linguística consciente. Justificativa para seu ensino - na escola, a variedade ensinada é a que deve ser compartilhada pela maioria dos brasileiros, a chamada língua padrão; o que implicaria estabelecer modelos definidos a serem seguidos. A escola tem ainda como finalidade proporcionar o aprendizado da norma culta.

Diferença entre “norma padrão” e “norma culta”.Editar

Norma padrão - coleção de regras impostas pela gramática normativa que, salvo por alguma divergência pontual entre os gramáticos, tende a ser homogênea e consensual, até porque está **codificada nas gramáticas**.

Norma culta - o conjunto das práticas linguísticas e dos modelos de uso encontrados em textos formais, especialmente na modalidade escrita, e que, justamente por **pertencerem à esfera do uso**, variam de um autor para outro (BIZZOCCHI, 2014).


Emprego da norma padrão e da norma culta?Editar

Imagine pessoas que escrevem textos formais:

a) textos que **seguem estritamente a gramática normativa**, chegando por vezes a ser pedantes, com construções como “fá-lo”, “pô-lo-ia”, etc. São bastante comuns na área jurídica;

b) textos que **flexibilizam as regras da norma padrão por razões estilísticas** (no caso da literatura, por exemplo) ou por exigências de mercado (isto é, para atender às expectativas do público-alvo). Neste caso, muito comum na publicidade e no jornalismo, procura-se escrever de modo elegante e culto, mas evitando o pedantismo de uma observância estrita ao padrão;

c) textos que **flexibilizam as regras da norma padrão por ignorância do redator**: neste caso, muito frequente hoje em dia, erra-se tentando acertar, como quando se emprega a ênclise, tida como mais correta, em contextos em que o próprio padrão exige a próclise. Ou quando se usa o infinitivo pessoal quando o recomendável seria o impessoal (as pessoas preferem pecar por excesso de concordância do que por falta!) (BIZZOCCHI, 2014).


Padronizar, para quê?Editar

Torre de Babel - por falta de entendimento entre os falantes, não foi possível terminar a construção da torre que os “levaria ao céu”. **Sem compreensão não é possível construir o conhecimento**.

Padronização da língua no século XX - evolução dos meios de comunicação de massa , generalização do ensino primário (grande mercado de livros didáticos e a criação de uma literatura infantil). São fatores externos à língua que favoreceram a tendência à uniformidade, freando a velocidade de suas mudanças.

Profissionais da linguagem empenharam-se na consolidação de um padrão de língua escrita ou falada: fixação da ortografia e do vocabulário; organização da morfologia e da sintaxe; definição de uma norma “brasileira” (ILARI; BASSO, 2006, p. 199).

A língua padrão não coincide com nenhuma das variedades faladas no Brasil. É muito mais próxima da escrita do que da fala e, apesar disso, costuma ser considerada como a única forma correta de uso da língua, o que faz com que alguns usos legítimos da língua portuguesa, não previstos na língua padrão, sejam considerados “desvios”.

Os usos da língua são socialmente diferentes, entretanto, as diferenças não devem significar valoração, apenas evidenciar que diferentes usos são adequados a diferentes situações comunicativas.

O que é o padrão ideal?Editar

A idealização de um padrão de língua remete à noção de norma, um sistema de instruções definidoras de como se deve escrever ou falar bem determinada língua, conformada a certo ideal estético ou sociocultural. Essa norma implica a existência de usos proibidos.

A escola impõe o ensino de uma norma padrão, que se caracteriza por estabelecer critérios avaliativos como juízos de valor extremos: certo x errado; bonito x feio; português x não português.

A norma tem valor?

Sob o ponto de vista da funcionalidade da língua, a norma, tanto no sentido de “algo normal” quanto de “modelo”, é inerente à noção de uso linguístico. não se pode vincular a elas qualquer noção de autoridade ou qualquer tipo de valoração (NEVES, 2006, p. 50).

A tradição do ensinoEditar

A escola é o lugar da tradição, onde o conteúdo é mais importante que o modo como ele será trabalhado. O público que a frequenta é extremamente diverso, não é o que se manifesta também no uso da língua.

O ensino tradicional baseia-se em memorização de listas e regras aplicadas a palavras e frases descontextualizadas. Preocupa-se com a correção. Não trabalha com a língua em uso.

Novas perspectivas para o ensino da línguaEditar

Ensinar a língua a partir do uso é mostrar para o aluno como a língua funciona em diferentes situações comunicativas.

Essa perspectiva tanto favorece o aluno na compreensão do que se ensina na sala de aula quanto o instrumentaliza para sua convivência e atuação na sociedade.

Exercícios descontextualizados de gramática contribuem muito menos para o aprimoramento do conhecimento linguístico do aluno do que exercícios que considerem a língua em condições reais e diferentes de uso.

ConclusãoEditar

discutiu-se o ensino da língua materna a partir da perspectiva linguística, considerando noções como norma culta e língua padrão.

Propomos o ensino pautado numa norma linguística que se insere em um quadro mais amplo dos comportamentos sociais, sem desconsiderar o lugar e a importância da norma culta dentro do panorama da diversidade linguística.

a norma de prestígio deveria ser um direito garantido ao aluno como meio de acesso a situações comunicativas mais formais, sem, contudo, haver discriminação das demais variedades linguísticas, que também permitem ao aluno sua inserção nas diversas comunidades de falantes, capacitando-o a interagir adequadamente em cada situação de uso. Reconhecer as diferenças entre as diversas normas, por meio de exercícios com diversos e variados textos (jornalísticos, científicos, literários, publicitários), permitirá que o falante se situe adequadamente no mundo que o cerca.

ResumoEditar

Aula 1 - Nossa língua é normal: por um ensino de língua portuguesa centrada no uso

Uma língua padrão, como vimos, é aquela ensinada na escola, devendo ser compartilhada, portanto, pela maioria dos brasileiros. Entretanto, não coincide com nenhuma das variedades faladas no Brasil. É muito mais próxima da escrita do que da fala e, apesar disso, costuma ser considerada por muitos como a única forma correta de uso da língua, o que faz com que alguns usos legítimos da língua portuguesa, não previstos na língua padrão, sejam considerados “desvios”. A língua padrão, difundida pela escola e detentora de prestígio acaba por influenciar o julgamento das pessoas, em relação ao modo de falar cotidiano, estabelecendo, por conseguinte, um ideal de pronúncia padronizada.

No Brasil, a maioria da população fala a língua portuguesa. Porém, como sabemos, em uma mesma extensão territorial há diferentes formas de uso da mesma língua. Sendo esses usos socialmente distintos, as diferenças não devem significar valoração, apenas evidenciar que diferentes usos são adequados a diferentes situações comunicativas.

A língua padrão se apoia nas regras e convenções que compõem a chamada gramática normativa, estabelecida como modelo de correção para toda e qualquer forma de expressão linguística. Na prática, a idealização de um padrão de língua nos remete diretamente à noção de norma, um sistema de instruções definidoras de como se deve escrever ou falar “bem” determinada língua, conformada a certo ideal estético ou sociocultural.

Ensinar a língua com base em exercícios descontextualizados de gramática contribui muito menos para o aprimoramento do conhecimento linguístico do aluno do que exercícios que considerem a língua em condições reais e diferentes de uso. Ensinar a língua a partir do uso, mostrando para o aluno como a língua funciona em diferentes situações comunicativas tanto favorece o aluno na compreensão do que se ensina na sala de aula quanto o instrumentaliza para sua convivência e atuação na sociedade.